Moxotó – Sua última viagem pelas águas do Velho Chico há 104 anos

Por Cláudio André, publicado em 24 de abril de 2021

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Para chegar ao topo do morro da Ilha de Belmonte, zona rural de Poço Redondo, Sergipe, tem toda uma aventura, mas você tendo coragem, determinação e espírito aventureiro, não tenha dúvidas que será recompensado pelo ar puro que respira e pelo contato com a natureza.
Foi no ano de 1917 que por volta das 16 horas do dia 10 de janeiro do respectivo ano que houve a maior tragédia de naufrágio dentro do rio São Francisco. O repórter Cláudio André O Poeta, fez uma travessia de barco para chegar a um banco de areia aonde está a carcaça da lancha Moxotó.
Com o nível do rio baixo, é possível ver uma parte da embarcação Moxotó que a 104 anos naufragou nas águas do Velho Chico. Relatos históricos contam que o motivo de ter provocado o acidente náutico foi uma tempestade. Quando a CHATA, como era apelidada, virou, das mais de 20 pessoas que estavam nela, pelo menos 06 conseguiram escapar para contar a história.
A ilha do Ferro é aquele lugar que você chega e logo tem saudade de voltar. Conhecemos a casa da artesã mais velha da comunidade, dona Morena Teixeira, que aos 95 anos de idade está em plena atividade como artesã.
Andando por ilha do Ferro, além do casario multicolorido que você pode visualizar, há os animais dóceis que começam a fazer a amizade com o visitante mas há aqueles que ficam desconfiados nos olhando do telhado, e exemplo desse gato que fotografamos.
Ser pescador ou canoeiro? Na ilha do Ferro, quem não é artesão, pode optar pelas duas outras profissões. A vida do ribeirinho é difícil, pode até ser, mas que é prazerosa, não tenha dúvidas.
As arquiteturas das casas invadem os anos, as décadas, os tempos e não perdem a originalidade, resultado da conservação da história dos moradores do lugar.
Se do lado direito do Velho Chico está ilha do Ferro, do lado oposto está ilha de Belmonte. Foi nesse local que ficou marcada a história do maior naufrágio de uma embarcação dentro do São Francisco, que foi a lancha Moxotó ao fazer sua última viagem no dia 10 de janeiro de 1917.
Quando estivemos em cima do morro da ilha de Belmonte, parei, respirei e olhei calmamente essa beleza natural… O vento soprando no seu rosto, temperatura de 30 graus queimando sua pele, sol para todos os lados, sem nuvens por perto, fiz essa imagem.
Se fiz pose? Foi o que mais fiz… Não é todo dia que você encontra um lugar assim, então temos mais que aproveitar. A ilha do Belmonte fica já no município de Poço Redondo, Sergipe.
Um dia é pouco para você conhecer as ilha do Ferro e Belmonte. Mas a aprendizagem que tivemos já foi o suficiente para compreender como é a vida do povo sertanejo, do povo ribeirinho. Ainda falando sobre o naufrágio da lancha Moxotó, há exatos 104 anos, diz uma lenda do lugar que o piloto da embarcação chamado de Rolinha, ironizou a fé cristã, por que quando foi pedido a ele para fazer um passeio no rio com a imagem do padroeiro de Piranhas, ele disse que não andava com santo de pau na canoa dele…
Essa imagem que fiz de cima do morro da Ilha do Belmonte. 104 anos após, a “Moxotó” ainda repousa sob as areias brancacentas da Ilha do Belmonte e se torna visível a cada vazante mais severa do rio, como que para lembrar a maior tragédia da navegação no baixo São Francisco.
Da ilha de Belmonte, agradeci ao Criador do universo por aqueles momentos de felicidade. A minha frente o Velho Chico, onde pisei, solo sagrado de grandes histórias, uma delas do naufrágio da Moxotó, que deixou ao menos 15 mortos.
O passeio de canoa foi outra experiência vivida aos 45 anos de idade. O experiente canoeiro Rosevaldo, nos encorajou para a travessia. Ir ao lugar que ficou marcado na história e ver in loco o que ainda sobrou da lancha Moxotó, voltamos a lembrança do que os tripulantes e passageiros vivenciaram durante o enfrentamento a tempestade que deu início ao naufrágio. Foi uma aventura e tanto e compartilho com cada leitor.
A chata Moxotó (Foto: Abílio Coutinho)

Por Etevaldo Amorim*

A viagem principiara tranquila. Desde o porto de Piranhas, donde partira pouco depois das 14:00 horas com destino a Pão de Açúcar, a Moxotó deslizava sobre as águas buliçosas do rio São Francisco, rompendo o vento forte, tão comum nessas tardes sertanejas. Tudo transcorria no modo habitual. Passageiros alegres em conversas as mais diversas, procuravam “matar o tempo” e, assim, conseguir que a viagem se tornasse menos fatigante. A “Chata”, como era conhecida, pernoitaria no porto de Pão de Açúcar para, na manhã da quinta-feira, seguir para Penedo, cumprindo a linha normal de todas as semanas. Antes, porém, reabasteceria com lenha trazida de canoa, desde Jacarezinho, por Manoel Carlos de Souza.

A Moxotó era a embarcação mais leve dentre todas da Companhia Pernambucana. Substituiu o vapor Sinimbu, grande e pouco efetivo, sobretudo em épocas de rio seco, quando frequentemente encalhava em bancos de areia, as conhecidas “coroas”. A Chata, não. Era possível com ela navegar em qualquer época. Serviam-se dela as pessoas mais abastadas de toda a região sanfranciscana: coronéis, fazendeiros, representantes comerciais… todos faziam o mesmo percurso até Penedo donde se podia embarcar para o Recife, Maceió ou para a Bahia, sem falar em outros destinos menos procurados.

A julgar pelas palavras de Moreno Brandão, em seu História de Alagoas, a Moxotó era pouco segura. Segundo ele, era “uma chata, cuja peregrinação através das águas tão fortes e caudalosas é um verdadeiro milagre, tal é a fragilidade da referida embarcação”.

Lá pelas quatro da tarde daquele 10 de janeiro de 1917, passando pelo povoado Bonsucesso (Poço Redondo/SE), eis que o vento se torna mais forte. Subitamente o céu se obumbra, prenunciando tenebrosa tempestade. E a tormenta se abate sobre as águas do rio agora revoltas e temerosas. Rajadas vindas do Norte varriam a superfície das águas de costa a costa. Quase nada se podia divisar em meio à intensa nuvem de poeira que encobria o horizonte. Já parecia noite e a escuridão só cessava aos relâmpagos que amiúdam, ora em intenso clarão, ora em caracóis de fogo, sucedidos por trovões apavorantes. A frágil embarcação logo sacoleja freneticamente sob o império das ondas, que se fazem tão altas como nunca se vira. Intensa marulhada faz o rio parecer um mar aberto, bravo e assombroso.

A chata Moxotó (Foto: Abílio Coutinho)

Cessam as conversas. Atemorizados, os passageiros se fecham num silêncio quase absoluto. O pequeno vapor, antes sobranceiro, agora se debate contra as vagas, em luta renhida, mas desigual. Debalde, procura o piloto manter o controle. O jovem Domingos Aguiar apela para que o prático “Rolinha”, que comandava a embarcação, aporte imediatamente em qualquer lugar, ou logo ali na confluência do riacho das Antas (pouco acima de Bonsucesso), mesmo com o risco de perdê-la, assegurando que seu pai pagaria todo o prejuízo.

Em vão… Talvez por acreditar que pudesse superar a turbulência, preferiu arrostar o perigo e, quando supôs não haver mais recursos, julgando poder proteger-se por detrás do morro do Belmonte, procurou o curso entre este e a margem direita, reduzindo velocidade e baixando âncoras. Foi o suficiente para a lancha tombar desgovernada, completamente à mercê das ondas e do vento. Seguem-se momentos de pavor. Forma-se de repente um cenário dantesco: gritos, choro, desespero. A água transpõe o convés e invade todo o vão interior. Pânico geral! Passageiros e tripulantes se atropelam em movimentos desordenados. Uns se lançam ao rio em busca de salvação; outros são tragados pelas ondas e sucumbem ao soberbo poder das águas tempestuosas, soçobrando inevitavelmente.

Consuma-se a tragédia. A tempestade afinal se aplaca ao cair da noite. Dia seguinte, a notícia se espalha. De Pão de Açúcar, onde a tempestade destelhou casas e derrubou árvores, partiram equipes de busca, coordenadas pelo Capitão Manoel Rego. Trabalho difícil e doloroso que ia revelando, a cada corpo encontrado, a extensão e a gravidade do que ocorrera no morro do Belmonte. Dentre os tripulantes o dispensário Silvestre, o criado Odilon e o imediato Hermínio Lemos, que foi localizado dentro do camarote. Morreram também os passageiros: Martinho Sergipano, Luiza Caximbo, Josephina Alves, José Guilherme, Domingos de Novaes Aguiar e ainda dois cegos, um menino e dois cidadãos cujos nomes são ignorados. Domingos só foi encontrado na noite do dia 12, sexta-feira. Seu túmulo se acha no cemitério velho de Pão de Açúcar, logo à direita do portão principal, ao lado de seus familiares: Major João Machado de Novaes Melo (Barão de Piaçabuçu) e Ferreira de Novaes, personagens importantes da história de Pão de Açúcar.

Alguns lograram sobreviver: o comandante Pedro Mathilde, o negociante Panta, Manoel Victorino, o guarda telegráfico Pedro Marinho, Nicácio Duarte, Antônio Totó e Justino Pereira, dentre outros. Mesmo depois de decorridos noventa anos daquela fatídica viagem, os habitantes da região ainda comentam o acontecimento. Não é difícil encontrar entre eles uma lembrança da embarcação: um pedaço de madeira ou outra peça que lhes sirva de recordação. A história, passada de geração a geração, mantém-se viva na memória dos ribeirinhos e desperta atenção de tantos quantos se interessam por assuntos dessa natureza. A Moxotó ainda repousa sob as areias brancacentas da Ilha do Belmonte e se torna visível a cada vazante mais severa do rio, como que para lembrar a maior tragédia da navegação no baixo São Francisco.

(*) Autor do livro Terra do Sol, Espelho da Lua.

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Cláudio André

Cláudio André Santos, natural da cidade de Olho d'Água das Flores, sertão de Alagoas, formado em radiojornalismo, poeta, blogueiro, radialista profissional (Reg.3059 - DRT-PE), escritor. Tem doze livros de poesias e crônicas publicados. Premiado Pelo Ministério da Cultura em 2009 com o projeto Cultural Minha Imaginação é um Poema. Estudou além Radiojornalismo, Francês e Filosofia. Membro efetivo da Associação Alagoana de Imprensa (Reg.678). Fundador da Rádio Olho d'Água FM e Rádio Web News Olho d'Água, criador do Projeto Música na Escola, ex-seminarista. Show-man. Foi um dos fundadores e diretor-executivo da Associação de Blogueiros de Pernambuco (ABlogpe). Fundador do Sistema Online Poeta de Comunicação (Blog, Site, Studio, Lista telefônica, Rádio Web e TV Web). Trabalhou em mais de uma dezena de emissoras de rádio nos estados de AL, PE, SP. Tecnólogo em oratória, em técnicas de vendas e administração empresarial pelo SENAC. Tem várias premiações como repórter e blogueiro. Destaque na área do fotojornalismo. Criador do projeto ecológico/educativo Poeta Viagens e Aventura. Membro efetivo da FACUPIRA (Fundação Cultural de Palmeira dos Índios/AL), Ex-membro do Conselho Municipal de Saúde de Bom Conselho/PE. Colunista dos sites Tribuna do Sertão (P.dos Índios) e Tribuna do Agreste (Arapiraca) e 7 Segundos (Maceió). Ex-assessor de comunicação da Câmara de Vereadores de Bom Conselho/PE.

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